Chutando o balde do (no?) cinema. Parte III de…
Dedico ao amigo Arthur.:
“Acontece que se ponha em dúvida a utilidade de livros téoricos sobre o cinema (particularmente hoje em dia, pois a época não é boa). Godard gosta de lembrar que, quando os futuros autores da nouvelle vague escreviam, não escreviam sobre o cinema, não faziam uma teoria dele – era, já, a sua maneira de fazerem filmes. Contudo, esta observação não manifesta uma grande compreensão do que se chama teoria. Pois a teoria é também algo que se faz, não menos que seu objeto. Para muito, a filosofia é algo que não ’se faz’, mas preexiste, pronta, num céu pré-fabricado. No entanto, a própria teoria filosófica é uma prática, tanto quanto seu objeto. Não é mais abstrata que seu objeto. É uma prática dos conceitos, e é preciso julgá-la em função das outras práticas com as quais interfere. Uma teoria do cinema não é ’sobre’ o cinema, mas sobre os conceitos que o cinema suscita, e que eles próprios estão em relação com outros conceitos que correspondem a outras práticas, não tendo a prática dos conceitos em geral qualquer privilégio sobre as demais, da mesma forma que um objeto não tem sobre os outros. É pela interferência de muitas práticas que as coisas se fazem, os seres, as imagens, os conceitos, todos os gêneros de acontecimentos. (…) Os grandes diretores do cinema são como grandes pintores ou grandes músicos: são eles que melhor falam do que fazem. Mas, falando, tornam-se outra coisa, tornam-se filósofos ou téoricos. (…)”
Gilles Deleuze em ‘A Imagem-Tempo’




Deixe uma resposta