Confesso. Já fui grande admirador do Arnaldo Jabor (e se isso rima é pura coincidência com a realidade).

Comecei a gostar do Jabor quando tinha lá pelos meus dezessete, dezoito anos. Foi quando descobri também o segundo caderno, do Globo. Sim, somente com essa idade eu percebi que tinham pessoas que escreviam sobre o que lhes viessem à cabeça na última página do segundo caderno. Aquilo era crônica. A crônica mudou a minha vida e o maldito Jabor fez parte disso.

O cara, na época, escrevia muito sobre política, sexo, deputados e também sobre os anos cinqüenta e cinema. Gostava mais desses últimos. Viajava um pouco sobre ele falando de seu pai (ou era avô?) militar, percorrendo as ruas do rio e vendo nascer ali as primeiras comunidades, ou, ainda, gostava de perambular por sua estórias sobre a ditadura. Cheia de imaginações, de certo. Lotada de ideologias, como não poderia deixar de ser. Mas tinha algo criativo ali. Algo que por ir além, ficava.

O fanatismo por esse fanfarrão me levou ao extremo de realizar uma coisa que nunca mais fiz e nunca tinha feito… recortava as colunas e guardava, numa bagunça genial, em uma gaveta. A mãe, logicamente, ficava furiosa. E o trabalho de organizar a papelada acabava por acabar em mãos da namorada da época, que fazia um trabalho impecável na organização das ditas crônicas.

Com a pasta organizada, as crônicas postas, numa seqüência cronológica de dar inveja ao mais obsessivo, eu ia percorrendo todas as terças-feiras à procura do diálogo perfeito com Arnaldo. Era assim, até que veio a tal crônica em que define amor e sexo… Lembro que li uma vez e achei chatíssima, depois li de novo e achei bela, diferente. Li algumas vezes e achei de uma alcunha tão grande definir amor e sexo que larguei de mão. Só mais tarde percebi que era brincadeira. De algum gosto.

Mostrei para a minha namorada (da época), ela não ligou muito, fez logo de recortar e colocar na seqüência cronológica perfeita que tinha desenvolvido. Fiquei sem crônica, então. Naquela pasta, as crônicas não eram nadas.

Fui conversar com meu avô sobre a tal crônica. Ele riu e disse que era engraçado eu gostar do Jabor, aquele cara que quando ‘tava duro, ferrado na vida, andava por Três Rios enchendo a cara e falando merda’. Nunca soube se isso era verdade, meu avô gostava de inventar estórias e era ‘amigo’ das pessoas mais questionáveis que você possa imaginar. E continuou com ‘então quer dizer que agora ele tá fazendo sucesso de novo…’ e deixou a frase assim, com os três pontos ali no ar.

Depois de um longo tempo eu abandonei as crônicas do Jabor e a tal namorada. Ela era racional demais, guardava o jornal em pasta e tirava qualquer coisa que havia ali. Sem dúvida era gente boa, sem dúvida é uma grande pessoa (mas uma mulher que assassina qualquer crônica é complicado de se conviver). Mais um tempo depois meu avô faleceu, assim, de repente. Coração parou e pou, já foi.

Logo nessa época (que meu avô tinha falecido) eu assisti o “Eu sei que vou te amar”, um filme belíssimo. Voltei a prestar atenção ao Jabor, mas agora pelo cinema. Assisti ao “Circo” e “Opinião Pública”, documentários do início de sua carreira, e Jabor passou a ser um cara legal, meio pop demais e com umas ideias que sei não, mas que dizia algo.

Falo tudo isso porque agora ele voltou a fazer cinema. É algo maravilhoso para o Brasil, sem dúvida. Mas isso me lembrou algo a mais, muito simplório de se pensar, que passa longe de profundas reflexões. Pois, se o filme for uma grande porcaria, o Jabor ficar na merda de novo… será que ele volta pra Três Rios pra entornar uns gorós?

Ah, meu avô! qual seria a sua opinião?

~ por entaooque em Maio 26, 2009.

Deixe uma resposta