lugar próprio (ainda que comum)

•Janeiro 7, 2009 • 1 Comentário

Puxou a cadeira para a varanda, trouxe o copo vermelho (seu favorito) com vitamina (leite de soja mais banana) e preparou-se para abrir o livro. Antes deu uma olhada para o mar, como que para conferir se ali ainda estavam as ondas. Mar conferido, lagoa à sua esquerda parada – suspensa em sua calma infinita – abriu o livro. O Filho Eterno, livro sensação do momento da literatura brasileira, Cristóvão Tezza escrevendo sobre a experiência de ter um filho com síndrome de Down.

            Começou. Primeiro parágrafo. Gostou. É Tezza mesmo, o estilo ali presente. Não daria pra confundir nunca. Nunca. Foi continuando, perambulando pelas palavras de um jeito calmo, com a cadeira na varanda, o vento agradável, vitamina, a calma da lagoa, as ondas cumprindo o seu dever. Sempre.

            Acontece que chega um momento em determinadas literaturas que a alma do leitor confunde-se demais com as palavras escritas e corre-se o risco de se perder entre o que está escrito. Reconhecer a sua experiência em conto relatado por outro é, em determinadas situações, por demais angustiante. Pensa sobre isso quando passa pela terceira ou quarta página. Gosta do que lê, ainda mais por se reconhecer. Também se assusta no que vê: o familiar é muito estranho.

            Em meio ao primeiro quarto de sua vida ele ainda não sabe o que vai ser. Idéias, planos, alguns bem bolados, outros vagos… vagos. Sente uma culpa muito grande de ser bancado pelos pais, de não conseguir um emprego. Ainda estudante, em vias de se formar. Busca apoio na namorada, mulher que ele não tem vergonha de dizer que pode viver com ela para sempre, ao contrário do que acontecia com as outras namoradas. Sonham juntos. Ele sonha falando. Ela, maioria das vezes, quieta.

            Surge um vizinho na varanda ao lado. Cara gente boa, camarada. Já conversaram algumas vezes, inclusive combinaram uma cerveja na padaria ali embaixo qualquer dia desses. “E aí,…” fala o vizinho, meio que rindo. Responde desajeitado um olá qualquer e se perde no meio do riso do amigo. Pensa do que ele está rindo e acaba olhando aquela cena toda, como um cartoon: ele sentado em sua cadeira de plástico branca, com um copo vermelho cheio de vitamina, lendo um livro. No riso do vizinho ele percebe o que não vê. Lembra do seu horror a crianças com Down, da angústia que elas provocam, do desespero em ter que assumir isso com essas crianças, esse sentimento que só elas causam. Da contradição em sair correndo da faculdade pra comprar esse “Filho Eterno”, pois tinha que ler. Do vendedor falando que ele tinha “um gosto fino, só tava levando filé”. Do Cortazar e do Sérgio Sant´anna que comprou também: “os filés”. Do Cristóvão Tezza, tão ali na sua frente, falando do seu filho que acaba de nascer.

            Terminou o primeiro capítulo, percebeu que não iria ser fácil. Olhou a lagoa, parada. O mar, as ondas. Achou ridículo o seu copo vermelho, ainda mais porque combinava com sua bermuda e a capa do livro. Achou pior ainda ter pensado que eles combinavam. Tentou voltar a ler, mas não dava. Já estava anoitecendo, ficando ruim de enxergar. Saiu da varanda, guardou a cadeira e entendeu porque esperou a noite dar fim ao dia para iniciar a leitura.  

Sem conseguir enxergar o mar ou a lagoa, sem saber do que se tratava a sua angústia frente às crianças com Down, sem saber o que esperava dali pra frente…era preciso ir com mais calma. Mas com alguma confiança de que é preciso continuar.

Nada de Pásargada, no máximo…

•Novembro 2, 2008 • Deixe um comentário

Se com Vinicius encontramos a metade da solução para aquilo que não há, esbarramos quando diz que… é a vida é boa, claro. Mas acontece, que no mesmo poema, diz ele que era triste, meu caro! E por aí ficamos a ver navios na medida de seus sonetos perfeitos, belos para dar de presentear a damas indefesas. Inicia-se então a cortejar outras paisagens e acabamos tropeçando, não na pedra do meio do caminho, mas nos óculos de Drummond, que alguém já roubou e esqueceu ali mesmo na calçada de Copacabana, que há muito já não engana. Percebemos então que não adianta chamar Ana, Lígia, Beatriz ou qualquer outra mulher das músicas de Chico Buarque que, se muito menos rimam, muito menos solução nesse mundo mundo vasto mundo de qualquer Raimundo. Porém, sem dar por fim da festa, que por aqui não há José algum, avançamos sem saber muito bem onde está o nosso porco espinho, primeira namorada de Bandeira, que já criança sofria pela não correspondência do outro ser. Temos apenas, enfim, algumas dicas de não aceitar esse lirismo comedido que anda por aí – que já falava o mesmo Manoel! – e escolhermos que os corpos se entendem, mas as almas não.
De uma maneira ou de outra, Cecilia já sabia:

“Porque a vida, a vida, a vida
a vida só é possível
reinventada.”

Gustavo Fonseca

fato de fato.

•Outubro 29, 2008 • Deixe um comentário

Pois há de se ter uma bela quantidade de energia para poder chegar em casa, no início da noite/final de tarde e começar a espancar o teclado em busca da digitação perfeita das letras engarrafadas num processador de texto qualquer.

Há, também!, de se ter muita disposição em achar uma vínculo mais que sincero entre uma possível música do Cartola, que por aqui agora toca, e um sentimento perdido lá no início da manhã enquanto acordava e suspirava o primeiro gole de café com pão torrado.

Sucede que tudo isso se perde ao meio dia no caldo de feijão com bastante alho, ao lado do arroz com batata frita, no restaurante do amigo chinês que errou a conta no ar condicionado que acabou esfriando o querido yakisoba de todo dia.

Mas é de total certeza, veemente falando, dizendo com todos os pingos nos “is”, que o café da tia do quinto andar da faculdade continua show de bola, a conversa sem “lé com cré” do amigo carioca ainda é pertinente na sua atual conjectura e que eu e você (assim falando no miudinho, sem dizer muito quem somos…) continuamos a nos debater nesse vão sem fim que separa meu mundo do teu.

Gustavo Fonseca

fica a dica.

•Outubro 27, 2008 • Deixe um comentário

Só para falar que quem quiser escutar um discasso baixa esse aqui: Schizofrenia, do Wayne Shorter.

Ainda vem com Ron Carter no baixo e Herbie Hancock fazendo alguns belos solos em seu piano.

é muito bom mesmo.

e parabéns para quem conseguiu assistir o Sonny Rollins. ;)

“desœuvrement”

•Outubro 27, 2008 • Deixe um comentário

A falta do que escrever aqui passa por alguns poucos motivos. Sabe se lá o que isso quer dizer, também.
Tentativas foram empreendidas, algumas bem pouco produtivas. Larguei mão e tô caindo fora por um tempo – quem sabe – até amanhã.
Fica para quem por aqui passa algo de um belo texto que eu li do Sérgio Laia. Tenho pensado sobre isso e cabe bem agora.

“Eis o abandono que, a meu ver, a modernidade nos lega: se o estabelecimento de parâmetros estéticos bem definidos é severamente abalado e não pretendemos nos circunscrevermos aos best sellers de ocasião, à redução do campo artístico à esfera do marketing, à confusão do vazio, da solidão da obra com a vacuidade insossa e o encastelamento cínico-reativo de uma série de textos e objetos produzidos e consumidos literalmente em série, devemos acatar a dessubstancialização de noções como as de “autor”, “leitor” e “obra” sem que com issonos furtemos às não menos desafiantes questões sobre o que é uma obra, um autor, um leitor…”

Gustavo Fonseca

jazz

•Outubro 6, 2008 • Deixe um comentário

o primeiro disco de jazz que escutei de rabo à cabo, de uma vez só, sem parar para respirar ou pensar foi o “saxophone colossus” do sonny rollins. que eu me lembre… sim foi o primeiro. depois comecei a escutar muito miles davis, até que eu descobri o “kind of blue” e com ele eu comecei a ver a vida de novo. simples, assim.

é que no “kind of blue” tem o coltrane. e o coltrane é impressionante. para resumir.

abaixo um vídeo, com coltrane tocando “my favorite things”, que tem no filme “a noviça rebelde”.

até!


Gustavo Fonseca

logo, ali.

•Outubro 2, 2008 • Deixe um comentário

Subiu a escada de dois em dois, pulando os últimos três numa beleza só – para poucos tal agilidade. Abriu a porta, passou pela sala e mirou o corredor. Procurou a primeira porta do lado esquerdo, jogou a mochila na cama e foi à caça de um cigarro do irmão. Pegou o útlimo Marlboro filtro branco e procurou o isqueiro preto, todo preto, Cricket. Foi para a sala, passou pelo corredor e ignorou o quarto lá do final, com um mapa colado na porta. Puxou, percebeu que um vermelho ia ser melhor, bem melhor. Irmão meio viado, meio moderninho, um saco. Fuma só por fumar.
Foi para a janela, olhou para o apartamento da frente. Dava pra ver a criança do terceiro andar brincar, num tapete colorido e a empregada fazendo hora pra entregar a menina loira para a mãe. Mais acima um casal chegando, felizes, tranqüilos, como se nada fosse acontecer, como se tudo estivesse escrito. Estavam conversando, muito. Moram no sétimo andar, dali já dá para ver o mar.
Ia por aí, nesse vai e vem, quando o celular do irmão tocou lá no quarto. Esse muleque esqueceu de novo o telefone. Saco, saco. Deixou para lá, tanto faz quem é. Continuou tocando. Continuou. Continuou. Quem tentava insistia. Pensou que podia ser o pai. Uma boa, tava precisando de dinheiro. Correu para o quarto. Não era o pai. Número esquisito. Tocava. Porra, essa merda não vai parar de tocar? Colocou debaixo do travesseiro, jogou por cima o lençol. Menos barulho.
Voltou pra sala, mandou a bituca do cigarro pela janela. Pá, caiu. Lá, lá embaixo, do lado da moto do vizinho gente boa. Puta, vai que pega na moto do cara. Olhou pra cima. A criança ainda tava lá, a empregada e o tapete. Que merda de emprego, ficar esperando os outros, cacete. O casal do sétimo tinha apagado as luzes, talvez eles tivessem saído. Desanimou, olhou pro chão e pensou na porcaria do irmão que não chegava com mais cigarro.
Ligou a televisão, sentou no sofá, encostou a cabeça na parede. O celular voltou a tocar. Mas estava mais longe, baixo. Porra de muleque que demora. Ficou assistindo o jornal, esperando notícias do seu time. Foi dormindo, aos poucos, enquanto a chuva chegava do lado de lá do mar, onde estava Pati, sua mais nova ex-noiva, debaixo de um orelhão qualquer na Glória, tentando falar com ele pelo celular do irmão para marcar um encontro. Precisava de suas coisas. Ali, no quarto do final do corredor com um mapa pendurado.


Gustavo Fonseca

do filme. (abertura)

•Setembro 24, 2008 • Deixe um comentário

como papo vai e papo vem eu lembrei da abertura do “obrigado por fumar” (2005). é uma das aberturas mais legais que já vi por aí, além da música, que é muito boa. dá uma olhada aqui.

Gustavo Fonseca

início de conversa.

•Setembro 24, 2008 • Deixe um comentário

feliz ano novo eu dizia enquanto os fogos estouravam no céu do outro lado da baía porque os daqui ainda demoravam, preguiçosos a subir e explodir. bum, cabum! tropecei mas não caí no jargão comum quando segurei na garganta que aquele seria o nosso ano, nada tiraria da gente a felicidade eterna do mais feliz casal do mundo. fingi que não ligava muito pra esse tipo de festa, dei um sorriso de lado e achei tudo muito bonito só quando ressaltei a beleza dos fogos refletida na água do mar. ela não se intimidou, deu um beijo muito grande em mim e com o seu sorriso disse o que não diria o maior bêbado corajoso das milhares de cidras entornadas entre as rosas para iemanjá. abracei a sua cintura, senti o seu cheiro misturado com sal do suor e lembrei que ali estava o mar, se ela não iria pular as infinitas ondinhas para a realização de suas promessas. não, hoje não. disse rindo. deixa isso para o ano que vem, disse. falei que já ia ela fazendo novas promessas no primeiro minuto do ano novo. olhou pra mim, deu um abraço, me beijou o peito na altura que ela alcançava e me abraçou. moço, começou. moço, moço… vamos continuar procurando a casa da Magali, deve ser por ali. fiquei meio que triste, meio que feliz, mais ou menos preocupado por ela não dizer que me amava ou coisa do tipo que se diz lá depois do primeiro beijo do novo ano novo. fingi que se assim se era assim seria e a puxei pelo braço, saindo da areia e procurando o asfalto perdido entre as rosas e o rio de champagne barato. lá pela segunda esquina passou uma neo hippie de all star com um incenso, pregando que júpiter estava ali para nós e queimou o vestido do meu amor.um pequeno buraco, no vestido mais novo do último dia do ano. um buraco. ainda que fosse “inho”. ela ficou parada, não conseguia mais se mexer e foi quando eu disse que essas coisas acontecem e que a gente daria um jeito, do vestido poderia se fazer uma camisa pois com imaginação tudo há de ser feito. a abracei e sem resistir saiu daqui de dentro que eu estaria com ela sempre, sempre. e que a amava. muito, muito. eu também te amo, muito. a beijei na testa, da maneira que sempre fazia. saímos à procura da casa da Magali, cortando caminho entre as pessoas, os carros, os bêbados e aqueles que tentam se equilibrar na felicidade momentânea dos vinte minutos de fogos de copacabana.

Gustavo Fonseca