Puxou a cadeira para a varanda, trouxe o copo vermelho (seu favorito) com vitamina (leite de soja mais banana) e preparou-se para abrir o livro. Antes deu uma olhada para o mar, como que para conferir se ali ainda estavam as ondas. Mar conferido, lagoa à sua esquerda parada – suspensa em sua calma infinita – abriu o livro. O Filho Eterno, livro sensação do momento da literatura brasileira, Cristóvão Tezza escrevendo sobre a experiência de ter um filho com síndrome de Down.
Começou. Primeiro parágrafo. Gostou. É Tezza mesmo, o estilo ali presente. Não daria pra confundir nunca. Nunca. Foi continuando, perambulando pelas palavras de um jeito calmo, com a cadeira na varanda, o vento agradável, vitamina, a calma da lagoa, as ondas cumprindo o seu dever. Sempre.
Acontece que chega um momento em determinadas literaturas que a alma do leitor confunde-se demais com as palavras escritas e corre-se o risco de se perder entre o que está escrito. Reconhecer a sua experiência em conto relatado por outro é, em determinadas situações, por demais angustiante. Pensa sobre isso quando passa pela terceira ou quarta página. Gosta do que lê, ainda mais por se reconhecer. Também se assusta no que vê: o familiar é muito estranho.
Em meio ao primeiro quarto de sua vida ele ainda não sabe o que vai ser. Idéias, planos, alguns bem bolados, outros vagos… vagos. Sente uma culpa muito grande de ser bancado pelos pais, de não conseguir um emprego. Ainda estudante, em vias de se formar. Busca apoio na namorada, mulher que ele não tem vergonha de dizer que pode viver com ela para sempre, ao contrário do que acontecia com as outras namoradas. Sonham juntos. Ele sonha falando. Ela, maioria das vezes, quieta.
Surge um vizinho na varanda ao lado. Cara gente boa, camarada. Já conversaram algumas vezes, inclusive combinaram uma cerveja na padaria ali embaixo qualquer dia desses. “E aí,…” fala o vizinho, meio que rindo. Responde desajeitado um olá qualquer e se perde no meio do riso do amigo. Pensa do que ele está rindo e acaba olhando aquela cena toda, como um cartoon: ele sentado em sua cadeira de plástico branca, com um copo vermelho cheio de vitamina, lendo um livro. No riso do vizinho ele percebe o que não vê. Lembra do seu horror a crianças com Down, da angústia que elas provocam, do desespero em ter que assumir isso com essas crianças, esse sentimento que só elas causam. Da contradição em sair correndo da faculdade pra comprar esse “Filho Eterno”, pois tinha que ler. Do vendedor falando que ele tinha “um gosto fino, só tava levando filé”. Do Cortazar e do Sérgio Sant´anna que comprou também: “os filés”. Do Cristóvão Tezza, tão ali na sua frente, falando do seu filho que acaba de nascer.
Terminou o primeiro capítulo, percebeu que não iria ser fácil. Olhou a lagoa, parada. O mar, as ondas. Achou ridículo o seu copo vermelho, ainda mais porque combinava com sua bermuda e a capa do livro. Achou pior ainda ter pensado que eles combinavam. Tentou voltar a ler, mas não dava. Já estava anoitecendo, ficando ruim de enxergar. Saiu da varanda, guardou a cadeira e entendeu porque esperou a noite dar fim ao dia para iniciar a leitura.
Sem conseguir enxergar o mar ou a lagoa, sem saber do que se tratava a sua angústia frente às crianças com Down, sem saber o que esperava dali pra frente…era preciso ir com mais calma. Mas com alguma confiança de que é preciso continuar.



